Um exercício para enxergar o que, como a sombra, vê-se bem na claridade, mas perde-se na penumbra.

domingo, 20 de setembro de 2009

DIÁLOGOS I

Este texto faz parte de uma série. São diálogos entre textos poéticos de jovens autores e amigos, com os quais resolvi dialogar. São as imagens que enxerguei a partir da poesia de cada um deles. São os desenhos da sombra que pude vislumbrar na penumbra de seus poemas.


Esta é de autoria de minha filha Agatha e está acompanhada por meu texto em prosa.



VISTA DA JANELA
Agatha Franco

No canto da praça,
um banco. No canto.

O casal. O senhor.
O trabalhador.
O amor.
A dor.
O calor.
No canto da praça,
um banco. No canto.

Pra ler o jornal,
parar...
pra pensar, pra sonhar,
pra simplesmente sentar...
e olhar... e amar...
No canto da praça,
um banco. No canto.

Meu banco
Meu canto...
Meu canto na praça.
O dia que passa
A chuva na vidraça,
Embaça...

Não está mais ali,
o banco
do canto
meu banco do canto da praça.

O casal, o senhor, o trabalhador...
Pra pensar, pra sonhar, pra olhar e amar.
Não está mais ali,
meu banco,
no canto,
meu canto da praça.




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VISTA DA JANELA
Helena Esteves

A casa era pequena, tinha uma janela imensa. Madeiras já curtidas pelo sal da maresia brilhavam como envernizadas, apesar de, há anos, sequer terem sentido o tocar dos pincéis. Brilhavam encapadas pelo tempo e pelos anos que ali estavam a emoldurar a pequena casa em frente à praça.
Quem por ali passava nem reparava na pequena fachada amarela amarelada disfarçada, desbotada em meio a muros pomposos de grades reforçadas. Era um bairro nobre. Poucas casas humildes restavam resistentes ao tempo e ao assédio imobiliário.
Aquela teria o mesmo destino, mas a velha haveria de partir antes disso. Junto a ela, dedicada e desprendida, felicidade embutida, representada no cuidado com a avó, no doar-se sem medida, sem verdade... mas também sem mentira, sem razão... mas também sem emoção... a menina, jovem ainda, curtida pelo sal da maresia e envernizada pelo tempo.
Pela janela via sua vida passar, dia após dia, sem verdade, mas também sem mentira. Fazia amigos que não a conheciam. Esperava-os olhando pela janela e buscava, em seus olhares e em suas rotinas, as interpretações da vida não vivida, passada. Dia, noite, dia, noite, dia...
A manhã trazia, à exceção dos dias chuvosos, o casal. Ali, os dois sentavam-se e, em meio a conversas nunca ouvidas, imaginadas, declaravam diariamente seu amor eterno, lançavam seus olhares ternos e seguiam suas vidas mornas, desejadas, almejadas. Teria ela, um dia, com quem sentar-se ali, naquele banco, no canto da praça?
Esperava os dois, à hora de costume, quase que como a aceitar a derrota prévia, a reafirmar que seu dia de amar jamais chegaria. Como poderia, então, sentar-se ao banco da praça?
O sol do meio-dia anunciava a chegada do trabalhador cansado. O banco da praça era o local em que depositava todo o peso e o suor do trabalho da manhã passada. Lá, ele abria, sempre no mesmo ritual monótono, o envelope de papel de pão. De lá tirava a fruta, o pão, o que lhe serviria de almoço. E, à mesa da velha casa, a comida quente esperava a menina depois das lentas colheradas oferecidas à avó, sempre no mesmo ritual monótono, com o olhar perdido, encontrado no banco do canto da praça. Sentaria ela, um dia, ao lado do trabalhador, à mesa da casa? Ou ao banco da praça?
E a tarde caía, o sol aliviava seus raios impiedosos e chegava o senhor de passos leves. Devagar ele se aproximava do banco. Sempre o mesmo banco do canto da praça. Trazia em seu dorso farto a dor acumulada pelos anos e, naquele banco, recostava como quem divide com o espaço as dores do mundo. Por ali permanecia sentado sem que ninguém o interpelasse ou dele se aproximasse. Dirigiria ela, um dia, sequer uma palavra àquele seu amigo que tanto sofria? Seria dada a ele a chance de conhecer quem havia tanto já o conhecia?
Na vitrine de sua casa, assistia a todos menos a ela, menos a seus desejos, menos a sua vida. Havia ao que assistir em sua vida? Por que não sentava ao banco da praça? Seu banco no canto da praça? Poderia ali viver seus sonhos, deixar nascer e crescer seus pensamentos perdidos, poderia amar ou simplesmente sentar e olhar. Encontrar os amigos que preenchiam sua vida vazia, vida vista da janela.
O tempo passava, marcado menos pelo relógio ou pelos meses e anos passados e mais pelo amigos que a envernizavam com suas vidas jamais ouvidas, imaginadas...e assistidas, no banco, do canto. Seu banco no canto da praça.
Foi num dia de frio, que a chuva lavou e levou as histórias que preenchiam sua vida vazia. Vieram os homens, suas ferramentas, seus capacetes, seus uniformes. Fizeram da vista amarelada pelo tempo uma vista pomposa, a combinar com os arredores. Cercaram a praça com grades e levaram dali o banco, do canto.
E a casa, pequena e envernizada pelo tempo, com sua janela vitrine de vida vazia, permaneceu desbotada.
E a felicidade da menina, embutida e envernizada pelo tempo, ficou a espera de novas histórias que viriam preencher sua vida vazia. Histórias que teriam o mesmo destino. A menos que a velha partisse antes disso.


4 comentários:

Tida Bolognani disse...

Olá, Márcia, sou prima da Luciana (Beto)e fiz também um blog e ela me passou o seu. Fiquei encantada...você e sua filha são duas pérolas em que Deus resolveu dotar-lhes de sensibilidade e expressão da beleza! As palavras certas, o momento certo de empregá-las, a poesia, a vida transitam de maneira muito leve em seus textos!
Parabéns, sou sua seguidora e gostaria que visitasse o meu..
http://degustaravida.blogspot.com
Eu o crei para me distrair, já que não tenho trabalho fora..é uma longa história! Sucesso, sucesso e muitas alegrias..espero logo o livro (parentes da Clarice Lispector e Cecília Meireles). Amo as duas e Adélia Prado, com certeza.
Beijão

Lu disse...

Oi Gostei muito do seu blog. Sou sua seguidora agora. Quanto a imagem? Tudo bem. Achei na web. Bonita né? bjs. Sucesso pra vc e parabéns pelo blog.

Anônimo disse...

EU TE AMO MUITO!

Bruxinha disse...

eu tbem amo ela muito..!!! e minha maezinha pra sempre, q conquistei!!!
saudadessss