Um exercício para enxergar o que, como a sombra, vê-se bem na claridade, mas perde-se na penumbra.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

É POR ISSO TAMBÉM

Queria encontrar as palavras certas para os sentimentos... ora! Mas não as encontro muitas vezes. Penso em como seria interessante poder escrevê-los, dividir com o mundo aqueles mais bonitos, rasgar aqueles que me causam dor, guardar alguns para um outro dia. Ah, se eu pudesse colocá-los no papel, talvez soubesse livrar-me deles.

Há quem diga que o desenho é um ótimo aliado nessa tarefa! Desenha-se o sentimento e pronto: lá está ele fora da gente. É... mas por mais que tenha tentado e por infinitas oportunidades que tenha tido, jamais aprendi essa arte. Sou das palavras.

Gosto delas, sabe? É. Das palavras. Gosto de fazê-las nascer de minhas mãos, combiná-las, construir meus sentidos e provocar outros tantos. O problema é que, de vez em quando, elas não me obedecem. E não é que as danadas acham de se rebelar justamente quando resolvo, mais uma vez, me empenhar na tarefa de escrever sentimentos!

Acho que é assim com muita gente, não é? Não sei. Sei que há pessoas a quem as palavras não obedecem nunca. Assim como os traços do meu lápis, ao desenhar, não me obedecem nunca. Creio que devo me contentar com essa desobediência circunstancial das palavras.

Saudade, por exemplo, há de diversos tipos, razões, causas e motivos. Ao menos temos a palavra ‘saudade’ e, assim, já estamos em vantagem. Se já é tão difícil encontrar palavras para externar o tipo de saudade que sentimos, imagine se não tivéssemos nem mesmo a própria palavra para dizê-la. É por isso que gosto tanto do português. É, tudo bem!, não é só por isso, não! É por isso também.

Angústia já é uma coisa ruim de sentir. Não há quem diga que gosta de se angustiar, há? Penso que não. E, quando me angustio, ando a esmo à procura de palavras que me permitam aprisionar o sentimento ao papel. Procuro e não as encontro. Se eu pudesse... se eu pudesse aprisionar minhas angústias a uma folha de papel, ou melhor, a um arquivo de Word, livrar-me-ia delas. Eu procuro. E não as encontro.

É por isso que gosto tanto de olhar para a lua. Tudo bem! Não é só por isso, não! É por isso também. Porque, quando me angustio procurando palavras para aprisionar minha angústia e não as encontro e mais me angustio e mais procuro, numa angústia que parece sem fim, olho para ela. Não que ela me indique as palavras. Não. Eu continuo sem encontrá-las. Não aprisiono a angústia, mas me encanto com a lua.

Encanto-me com a lua e também não encontro palavras para esse encantamento. Já desejei vivamente escrever o que sinto ao olhar para a lua. Não consigo. Já ensaiei umas tantas palavras, mas todas desobedientes. Por mais que as combine de diferentes formas, não dá. Elas não me obedecem.

Não que eu quisesse aprisionar o que sinto ao olhá-la. Ao contrário. Queria mesmo era distribuir, pelo mundo, meu encantamento. Ah, e quando o brilho se reflete nas marolas do mar...!! É, não há mesmo palavras que me obedeçam.


E a angústia se vai. E porque não a aprisionei, sei que voltará.

Nesse momento, vou agradecer por não ter aprisionado, também, o encantamento com a lua. É ele quem vai fazer a angústia ir embora outra vez.

Pensando bem... Que bom que, vez em quando, as palavras não me obedecem!

E é por isso que amo tanto a vida. É, tudo bem!, não é só por isso, não. Mas é por isso também.



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