Um exercício para enxergar o que, como a sombra, vê-se bem na claridade, mas perde-se na penumbra.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

MAIS DA METADE DA VIDA

A volta das férias sempre foi, para Jorge, um engravatado conflito que se seguia aos dias casuais passados na cidade maravilhosa. Nesse ano, a mesma situação se apresentava especialmente complexa. Fizera 50 anos e a sombra de já ter vivido a metade de sua vida escurecia os dias que haviam brilhado em raios ensolarados do Rio de Janeiro.

— Bom dia, Jorge, e as férias?
— Bom dia, Ju, acabaram.
Companheira de trabalho há anos, Julieta já não esperava a resposta do colega. Na verdade, não desejava saber das férias. Era, como tantas outras, apenas uma interpelação cotidiana, sem expectativa de complemento. Estranho seria se, dali, se originasse um diálogo.
— Tomei uma decisão, Julieta — prosseguiu Jorge, para surpresa geral, — não ficarei mais aqui.
— O que houve?
— Problemas?
— É a família?
Em cidades engravatadas, é hábito farejar problemas. Eles combinam com a cor cinza da paisagem, dos ternos e dos vestidos sóbrios e sombrios.
Ora, se estivesse Jorge a desfiar as belezas da paisagem carioca, a alegria sambeira ou o contorno arredondado dos corpos e das serras, talvez, só Julieta o escutasse, ainda que com seus ouvidos moucos. Porém, ao pressentir problemas ou angústias, o espírito solidário acometeu a todos subitamente.
— De hoje, não passa — continuou.
— Como, Jorge? Seja mais específico, o que pretende fazer? Não vai ficar aqui, vai para onde? Vai fazer o quê?
— Passei da metade da vida, minha amiga, e é preciso fazer escolhas. Não posso mais deixá-lo sozinho. Ele que acompanhou toda a minha infância, que me ensinou a nadar e pisar as areias das praias, que me mostrou a beleza da natureza, que me embalou nas tristezas adolescentes, que esteve ao meu lado e à minha frente. Chega, não posso mais deixá-lo só.
— Hum... parece correto, sim. Mas...
— Quando vim para cá, trabalhar, trabalhar e trabalhar, tinha um objetivo: juntar dinheiro para comprar um apartamento bem juntinho a ele.
— Já tem o dinheiro?
— Dinheiro nunca é o quanto basta, mas dá-se um jeito. Por hoje, passo no DP e peço dispensa. Volto para encontrar o apartamento e para cuidar dele, todo dia... visitar, sempre... admirar, muito. Aqui, já não estarei amanhã, que a saudade dele é mais forte que aquela que daqui sentirei.
Naquele dia, os farejadores de problemas estavam atentos às palavras de Jorge ao celular.
— Opa... cara, já voltei, hoje não vai dar... Já foi lá?... Como ele está?... Alto?... E eu aqui... Eu devia estar aí, passaria o dia com ele... Mas você vai lá, né!... Olha, amanhã tô partindo de volta... Chego aí e você me ajuda a encontrar o apê... formô... té mais!
Os olhares acinzentados dos colegas engravatados não se voltaram para Jorge, mas cada um foi, de forma particular, acometido pela curiosidade. Quem estaria precisando tanto assim de ajuda? Naquele momento, todos concordavam com a escolha de Jorge e já aproveitavam para se ocupar dos comentários e das mazelas daqueles quem terão novo chefe.
No Departamento Pessoal, tudo ocorreu à normalidade esperada.
— Sr. Corrêa, chego hoje do Rio de Janeiro e já arrumei todas as coisas. Não posso mais ficar por aqui. Todos esses anos foram de grande valia profissional para mim, mas, realmente, tenho obrigações morais no Rio de Janeiro. Meu irmão, que trabalhou muito menos do que eu a vida inteira, veste as bermudas todo dia a visitá-lo e eu, aqui, a juntar dinheiro, visto todo dia meu terno e dele me distancio cada vez mais. Fiz 50 anos, mais da metade da vida já se foi. Quero passar a outra metade a seu lado. Sendo assim, solicito a especial gentileza de dispensar-me do aviso prévio, para que eu, o mais tardar amanhã, possa estar ao lado dele.
Ao passar pela saleta onde trabalhara por anos, jogou a chave na mesa de Julieta.
— Faça-me um último favor, amiga. Passe lá em casa, traga todos os meus ternos e distribua aos rapazes pra mim. Regue as plantas ou leve-as pra você, se quiser. Entregue a chave ao porteiro e me ligue se quiser aparecer por lá. Quando eu tiver o número novo, ligo pra cá. Estarão todos bem.
E, sem abraço ou afeto, partiu com a gravidade de quem vai socorrer um ente querido da solidão e da ausência.
O Rio de Janeiro estava lá, a sua espera, com seus mistérios e histórias, de braços abertos. Finalmente, teria seu filho querido de volta a seu lado.
O regresso ocorreu em alto estilo. Sobrevoou a costa azul-esverdeada, com as barras brancas da espuma no amarelo das areias das praias e pousou na pista emoldurada pelo verde do aterro do Flamengo. Rio de Janeiro de belezas e de braços abertos.
Sem explicação, a vida enchia-lhe o corpo novamente. Os cinquenta anos já não pesavam como anteriormente. Teria mais cinquenta para estar por aqui, ao lado de seus amores, ainda que estes por aqui já estivessem antes dessa existência.
O celular.
— Opa... cara, cheguei!... Beleza, resolvi tudo, sim... Chutei o balde... Será que posso acampar aí por uns dias até arranjar meu canto?... Já é, então... E como ele está?... Alto?... Maravilha! Tô chegando.
Agora era se vestir de carioca e ir até ele. Vê-lo, abraçá-lo e deixar que seus encantos, mais uma vez, suscitassem os mistérios que lhe dariam razão para os próximos cinquenta.
As portas estavam abertas, o sol iluminava o cenário e os pés tocaram a areia da praia. Sentado à pedra do Arpoador, olhou para ele que o esperava imponente. Deixou que seus braços o envolvessem, mais uma vez, e, misteriosamente, como o mar faz de forma ímpar, o levassem pelas correntes do encantamento. Mar, mistério e maravilha.

Um comentário:

Lucia Maria disse...

A Julieta poderia ser a Ju. Pior do que viver a metade da vida é quando já se viveu 80% e não se conseguiu fazer o que planejava. Beijos