Um exercício para enxergar o que, como a sombra, vê-se bem na claridade, mas perde-se na penumbra.

domingo, 20 de setembro de 2009

DIÁLOGOS I

Este texto faz parte de uma série. São diálogos entre textos poéticos de jovens autores e amigos, com os quais resolvi dialogar. São as imagens que enxerguei a partir da poesia de cada um deles. São os desenhos da sombra que pude vislumbrar na penumbra de seus poemas.


Esta é de autoria de minha filha Agatha e está acompanhada por meu texto em prosa.



VISTA DA JANELA
Agatha Franco

No canto da praça,
um banco. No canto.

O casal. O senhor.
O trabalhador.
O amor.
A dor.
O calor.
No canto da praça,
um banco. No canto.

Pra ler o jornal,
parar...
pra pensar, pra sonhar,
pra simplesmente sentar...
e olhar... e amar...
No canto da praça,
um banco. No canto.

Meu banco
Meu canto...
Meu canto na praça.
O dia que passa
A chuva na vidraça,
Embaça...

Não está mais ali,
o banco
do canto
meu banco do canto da praça.

O casal, o senhor, o trabalhador...
Pra pensar, pra sonhar, pra olhar e amar.
Não está mais ali,
meu banco,
no canto,
meu canto da praça.




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VISTA DA JANELA
Helena Esteves

A casa era pequena, tinha uma janela imensa. Madeiras já curtidas pelo sal da maresia brilhavam como envernizadas, apesar de, há anos, sequer terem sentido o tocar dos pincéis. Brilhavam encapadas pelo tempo e pelos anos que ali estavam a emoldurar a pequena casa em frente à praça.
Quem por ali passava nem reparava na pequena fachada amarela amarelada disfarçada, desbotada em meio a muros pomposos de grades reforçadas. Era um bairro nobre. Poucas casas humildes restavam resistentes ao tempo e ao assédio imobiliário.
Aquela teria o mesmo destino, mas a velha haveria de partir antes disso. Junto a ela, dedicada e desprendida, felicidade embutida, representada no cuidado com a avó, no doar-se sem medida, sem verdade... mas também sem mentira, sem razão... mas também sem emoção... a menina, jovem ainda, curtida pelo sal da maresia e envernizada pelo tempo.
Pela janela via sua vida passar, dia após dia, sem verdade, mas também sem mentira. Fazia amigos que não a conheciam. Esperava-os olhando pela janela e buscava, em seus olhares e em suas rotinas, as interpretações da vida não vivida, passada. Dia, noite, dia, noite, dia...
A manhã trazia, à exceção dos dias chuvosos, o casal. Ali, os dois sentavam-se e, em meio a conversas nunca ouvidas, imaginadas, declaravam diariamente seu amor eterno, lançavam seus olhares ternos e seguiam suas vidas mornas, desejadas, almejadas. Teria ela, um dia, com quem sentar-se ali, naquele banco, no canto da praça?
Esperava os dois, à hora de costume, quase que como a aceitar a derrota prévia, a reafirmar que seu dia de amar jamais chegaria. Como poderia, então, sentar-se ao banco da praça?
O sol do meio-dia anunciava a chegada do trabalhador cansado. O banco da praça era o local em que depositava todo o peso e o suor do trabalho da manhã passada. Lá, ele abria, sempre no mesmo ritual monótono, o envelope de papel de pão. De lá tirava a fruta, o pão, o que lhe serviria de almoço. E, à mesa da velha casa, a comida quente esperava a menina depois das lentas colheradas oferecidas à avó, sempre no mesmo ritual monótono, com o olhar perdido, encontrado no banco do canto da praça. Sentaria ela, um dia, ao lado do trabalhador, à mesa da casa? Ou ao banco da praça?
E a tarde caía, o sol aliviava seus raios impiedosos e chegava o senhor de passos leves. Devagar ele se aproximava do banco. Sempre o mesmo banco do canto da praça. Trazia em seu dorso farto a dor acumulada pelos anos e, naquele banco, recostava como quem divide com o espaço as dores do mundo. Por ali permanecia sentado sem que ninguém o interpelasse ou dele se aproximasse. Dirigiria ela, um dia, sequer uma palavra àquele seu amigo que tanto sofria? Seria dada a ele a chance de conhecer quem havia tanto já o conhecia?
Na vitrine de sua casa, assistia a todos menos a ela, menos a seus desejos, menos a sua vida. Havia ao que assistir em sua vida? Por que não sentava ao banco da praça? Seu banco no canto da praça? Poderia ali viver seus sonhos, deixar nascer e crescer seus pensamentos perdidos, poderia amar ou simplesmente sentar e olhar. Encontrar os amigos que preenchiam sua vida vazia, vida vista da janela.
O tempo passava, marcado menos pelo relógio ou pelos meses e anos passados e mais pelo amigos que a envernizavam com suas vidas jamais ouvidas, imaginadas...e assistidas, no banco, do canto. Seu banco no canto da praça.
Foi num dia de frio, que a chuva lavou e levou as histórias que preenchiam sua vida vazia. Vieram os homens, suas ferramentas, seus capacetes, seus uniformes. Fizeram da vista amarelada pelo tempo uma vista pomposa, a combinar com os arredores. Cercaram a praça com grades e levaram dali o banco, do canto.
E a casa, pequena e envernizada pelo tempo, com sua janela vitrine de vida vazia, permaneceu desbotada.
E a felicidade da menina, embutida e envernizada pelo tempo, ficou a espera de novas histórias que viriam preencher sua vida vazia. Histórias que teriam o mesmo destino. A menos que a velha partisse antes disso.


sexta-feira, 11 de setembro de 2009

ENCONTRO

Buscando em minhas verdades
Aquelas que me são mais caras
Sem medo, arrisco dizer
Que estas me mostram você

Você com o sabor mais doce
E rastros de amargo esquecido
Você com cheiro de encanto
Desejo de amar destemido

Nestas verdades, descubro
Em meio ao tempo perdido
Perdida que estava a buscar
O que nem sabia escondido

Você com rosto de encontro
Em meu olhar acolhido
De solidão, de mentiras
Apesar do medo doído
O AMAR absolvido!



Imagem: Amor nas águas da baía de Guanabara - por Márcia Helena - jan/09

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

MAIS DA METADE DA VIDA

A volta das férias sempre foi, para Jorge, um engravatado conflito que se seguia aos dias casuais passados na cidade maravilhosa. Nesse ano, a mesma situação se apresentava especialmente complexa. Fizera 50 anos e a sombra de já ter vivido a metade de sua vida escurecia os dias que haviam brilhado em raios ensolarados do Rio de Janeiro.

— Bom dia, Jorge, e as férias?
— Bom dia, Ju, acabaram.
Companheira de trabalho há anos, Julieta já não esperava a resposta do colega. Na verdade, não desejava saber das férias. Era, como tantas outras, apenas uma interpelação cotidiana, sem expectativa de complemento. Estranho seria se, dali, se originasse um diálogo.
— Tomei uma decisão, Julieta — prosseguiu Jorge, para surpresa geral, — não ficarei mais aqui.
— O que houve?
— Problemas?
— É a família?
Em cidades engravatadas, é hábito farejar problemas. Eles combinam com a cor cinza da paisagem, dos ternos e dos vestidos sóbrios e sombrios.
Ora, se estivesse Jorge a desfiar as belezas da paisagem carioca, a alegria sambeira ou o contorno arredondado dos corpos e das serras, talvez, só Julieta o escutasse, ainda que com seus ouvidos moucos. Porém, ao pressentir problemas ou angústias, o espírito solidário acometeu a todos subitamente.
— De hoje, não passa — continuou.
— Como, Jorge? Seja mais específico, o que pretende fazer? Não vai ficar aqui, vai para onde? Vai fazer o quê?
— Passei da metade da vida, minha amiga, e é preciso fazer escolhas. Não posso mais deixá-lo sozinho. Ele que acompanhou toda a minha infância, que me ensinou a nadar e pisar as areias das praias, que me mostrou a beleza da natureza, que me embalou nas tristezas adolescentes, que esteve ao meu lado e à minha frente. Chega, não posso mais deixá-lo só.
— Hum... parece correto, sim. Mas...
— Quando vim para cá, trabalhar, trabalhar e trabalhar, tinha um objetivo: juntar dinheiro para comprar um apartamento bem juntinho a ele.
— Já tem o dinheiro?
— Dinheiro nunca é o quanto basta, mas dá-se um jeito. Por hoje, passo no DP e peço dispensa. Volto para encontrar o apartamento e para cuidar dele, todo dia... visitar, sempre... admirar, muito. Aqui, já não estarei amanhã, que a saudade dele é mais forte que aquela que daqui sentirei.
Naquele dia, os farejadores de problemas estavam atentos às palavras de Jorge ao celular.
— Opa... cara, já voltei, hoje não vai dar... Já foi lá?... Como ele está?... Alto?... E eu aqui... Eu devia estar aí, passaria o dia com ele... Mas você vai lá, né!... Olha, amanhã tô partindo de volta... Chego aí e você me ajuda a encontrar o apê... formô... té mais!
Os olhares acinzentados dos colegas engravatados não se voltaram para Jorge, mas cada um foi, de forma particular, acometido pela curiosidade. Quem estaria precisando tanto assim de ajuda? Naquele momento, todos concordavam com a escolha de Jorge e já aproveitavam para se ocupar dos comentários e das mazelas daqueles quem terão novo chefe.
No Departamento Pessoal, tudo ocorreu à normalidade esperada.
— Sr. Corrêa, chego hoje do Rio de Janeiro e já arrumei todas as coisas. Não posso mais ficar por aqui. Todos esses anos foram de grande valia profissional para mim, mas, realmente, tenho obrigações morais no Rio de Janeiro. Meu irmão, que trabalhou muito menos do que eu a vida inteira, veste as bermudas todo dia a visitá-lo e eu, aqui, a juntar dinheiro, visto todo dia meu terno e dele me distancio cada vez mais. Fiz 50 anos, mais da metade da vida já se foi. Quero passar a outra metade a seu lado. Sendo assim, solicito a especial gentileza de dispensar-me do aviso prévio, para que eu, o mais tardar amanhã, possa estar ao lado dele.
Ao passar pela saleta onde trabalhara por anos, jogou a chave na mesa de Julieta.
— Faça-me um último favor, amiga. Passe lá em casa, traga todos os meus ternos e distribua aos rapazes pra mim. Regue as plantas ou leve-as pra você, se quiser. Entregue a chave ao porteiro e me ligue se quiser aparecer por lá. Quando eu tiver o número novo, ligo pra cá. Estarão todos bem.
E, sem abraço ou afeto, partiu com a gravidade de quem vai socorrer um ente querido da solidão e da ausência.
O Rio de Janeiro estava lá, a sua espera, com seus mistérios e histórias, de braços abertos. Finalmente, teria seu filho querido de volta a seu lado.
O regresso ocorreu em alto estilo. Sobrevoou a costa azul-esverdeada, com as barras brancas da espuma no amarelo das areias das praias e pousou na pista emoldurada pelo verde do aterro do Flamengo. Rio de Janeiro de belezas e de braços abertos.
Sem explicação, a vida enchia-lhe o corpo novamente. Os cinquenta anos já não pesavam como anteriormente. Teria mais cinquenta para estar por aqui, ao lado de seus amores, ainda que estes por aqui já estivessem antes dessa existência.
O celular.
— Opa... cara, cheguei!... Beleza, resolvi tudo, sim... Chutei o balde... Será que posso acampar aí por uns dias até arranjar meu canto?... Já é, então... E como ele está?... Alto?... Maravilha! Tô chegando.
Agora era se vestir de carioca e ir até ele. Vê-lo, abraçá-lo e deixar que seus encantos, mais uma vez, suscitassem os mistérios que lhe dariam razão para os próximos cinquenta.
As portas estavam abertas, o sol iluminava o cenário e os pés tocaram a areia da praia. Sentado à pedra do Arpoador, olhou para ele que o esperava imponente. Deixou que seus braços o envolvessem, mais uma vez, e, misteriosamente, como o mar faz de forma ímpar, o levassem pelas correntes do encantamento. Mar, mistério e maravilha.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

É POR ISSO TAMBÉM

Queria encontrar as palavras certas para os sentimentos... ora! Mas não as encontro muitas vezes. Penso em como seria interessante poder escrevê-los, dividir com o mundo aqueles mais bonitos, rasgar aqueles que me causam dor, guardar alguns para um outro dia. Ah, se eu pudesse colocá-los no papel, talvez soubesse livrar-me deles.

Há quem diga que o desenho é um ótimo aliado nessa tarefa! Desenha-se o sentimento e pronto: lá está ele fora da gente. É... mas por mais que tenha tentado e por infinitas oportunidades que tenha tido, jamais aprendi essa arte. Sou das palavras.

Gosto delas, sabe? É. Das palavras. Gosto de fazê-las nascer de minhas mãos, combiná-las, construir meus sentidos e provocar outros tantos. O problema é que, de vez em quando, elas não me obedecem. E não é que as danadas acham de se rebelar justamente quando resolvo, mais uma vez, me empenhar na tarefa de escrever sentimentos!

Acho que é assim com muita gente, não é? Não sei. Sei que há pessoas a quem as palavras não obedecem nunca. Assim como os traços do meu lápis, ao desenhar, não me obedecem nunca. Creio que devo me contentar com essa desobediência circunstancial das palavras.

Saudade, por exemplo, há de diversos tipos, razões, causas e motivos. Ao menos temos a palavra ‘saudade’ e, assim, já estamos em vantagem. Se já é tão difícil encontrar palavras para externar o tipo de saudade que sentimos, imagine se não tivéssemos nem mesmo a própria palavra para dizê-la. É por isso que gosto tanto do português. É, tudo bem!, não é só por isso, não! É por isso também.

Angústia já é uma coisa ruim de sentir. Não há quem diga que gosta de se angustiar, há? Penso que não. E, quando me angustio, ando a esmo à procura de palavras que me permitam aprisionar o sentimento ao papel. Procuro e não as encontro. Se eu pudesse... se eu pudesse aprisionar minhas angústias a uma folha de papel, ou melhor, a um arquivo de Word, livrar-me-ia delas. Eu procuro. E não as encontro.

É por isso que gosto tanto de olhar para a lua. Tudo bem! Não é só por isso, não! É por isso também. Porque, quando me angustio procurando palavras para aprisionar minha angústia e não as encontro e mais me angustio e mais procuro, numa angústia que parece sem fim, olho para ela. Não que ela me indique as palavras. Não. Eu continuo sem encontrá-las. Não aprisiono a angústia, mas me encanto com a lua.

Encanto-me com a lua e também não encontro palavras para esse encantamento. Já desejei vivamente escrever o que sinto ao olhar para a lua. Não consigo. Já ensaiei umas tantas palavras, mas todas desobedientes. Por mais que as combine de diferentes formas, não dá. Elas não me obedecem.

Não que eu quisesse aprisionar o que sinto ao olhá-la. Ao contrário. Queria mesmo era distribuir, pelo mundo, meu encantamento. Ah, e quando o brilho se reflete nas marolas do mar...!! É, não há mesmo palavras que me obedeçam.


E a angústia se vai. E porque não a aprisionei, sei que voltará.

Nesse momento, vou agradecer por não ter aprisionado, também, o encantamento com a lua. É ele quem vai fazer a angústia ir embora outra vez.

Pensando bem... Que bom que, vez em quando, as palavras não me obedecem!

E é por isso que amo tanto a vida. É, tudo bem!, não é só por isso, não. Mas é por isso também.



segunda-feira, 7 de setembro de 2009

TEMPERANÇA

Ao sopro de algumas poucas palavras, entrelaçaram-se vidas cheias de espaços vazios.

Laçadas que estavam, em dois nós quase cegos, descobriram-se capazes de enxergar muito além das cegueiras do mundo e, assim, os nós... ah, os nós!, como em finas fitas de cetim, cada vez mais frouxos, em trança se laçaram.

Dança a trança, ao som das memórias comuns. Trançam olhares que juram o que de palavras prescinde. Doem as lanças que, perdidas, resvalam na corda da trança. Cansa. Dança na trança e amansa...e trança... ainda mais firme. Confiança.


Da corda fez-se o laço mais belo, o laço mais forte, um laço sem nó, tão firme quanto a trança que fez-se na dança... na dança das vidas que, agora, são cheias de espaços repletos, plenos.

Temperança...



segunda-feira, 15 de junho de 2009

POEMA PARA VIDA QUE AGORA HÁ


Hoje escrevo à Vida
Que enche
Em momento
Preenche
E transborda
Em mim
Sem lamento.

Vida,
Estás absolvida
Compreendida
Por ter sido atrevida
Indefinida, descabida.

Ao menos, Vida,
Não foste perdida!
Encontrei-te
Em compasso cessante
Num lapso de instante.

Vida,
Tornou-me em amante...
Vida,
Por ti, fiz-me andante...
Vida,
Por mim, doravante
Enche
Preenche
Transborda

Sem lamento
Sem mais fragmento
Num golpe de alento
Sopro lento
De amor, nascimento
Vento ciumento
Tento

Vida,
Enche
Preenche
Transborda...

... de amor!



Imagem: Eu nos jardins do MAST- mai/2009 - por Márcio Mantovani

domingo, 14 de junho de 2009

AMARELO... LIMÃO OU OVO?

Sou uma daquelas pessoas que têm problemas com cores. Implico quando as cores estão nos lugares errados. Há coisas que não deveriam ser da cor que são. Tenho certeza! Chocolate por exemplo... jamais poderia ser marrom. Marrom é cor de lama, de terra... de coisa que não é para comer, de esgoto e de outras porcarias mais. Agora, imagina abrir uma embalagem de chocolate, papel prateado e um tablete amarelinho, bem vivo, amarelo-brasil! Tudo bem! Ia parecer que tinha gosto de fruta. E se fosse lilás? Isso! Uma cor exclusiva para o chocolate. Penso que nada mais há para se comer que seja lilás. É! Chocolate, definitivamente, deveria ser lilás.

E não é só o chocolate que deveria mudar de cor. Para início de conversa, verde e azul poderiam ganhar um nome único. Todo mundo discute por causa disso. É verde-piscina ou azul-piscina? Que cor tem o mar? E o petróleo, afinal, é azul-petróleo ou verde-petróleo? Acho que é preto, né! Display de fósforo verde mostra os números azuis, incrível! Mas há quem diga que aquilo é verde só porque tem nome de fósforo verde. Pronto! Resolvo tudo chamando as duas cores de... sei lá! O nome não importa, desde que seja um só para as duas cores.

Flor existe de todas as cores... pode pensar... não há uma única cor que não tenha sido escolhida para colorir uma flor... pelo menos uma espécie de flor no planeta! Errado! Não há flor preta. Que lindas seriam as margaridas pretas, ao lado das margaridas brancas e seus miolos amarelos num campo de mato verde. Perfeito. Van Gogh seria capaz de pensar margaridas pretas... e o preto ficou de fora da valsa das flores, quer dizer, da valsa das cores das flores.

E o amarelo, hein!? É a cor que mais me intriga. Amarelo é bonito ou feio? Um mesmo tom de amarelo pode ser lindo aqui e feio ali. Exatamente porque há lugares em que o amarelo não combina.

Passar reveillon de amarelo é perfeito... alegria, felicidade, dinheiro, prosperidade... mas a blusa fica guardada todo o resto do ano. Depois a gente dá pra alguém, porque, para o próximo, tem que ser roupa nova, claro! Ano novo, roupa nova...

Miolo de flor tudo bem... tem mesmo que ser amarelo. Afinal, que cor combinaria com tantas outras para que a natureza pintasse as flores. E eu continuo não entendendo por que não existe flor preta. Amarelo com preto é tão lindo... borboleta, abelha, moto e carro de rally... amarelo com preto combina mesmo, mas não existe flor preta, mesmo que o miolo seja amarelo!

Sorriso amarelo ninguém quer dar. É quando a gente sorri sem querer sorrir, é quando o sorriso é de vergonha ou medo, nada de felicidade ou alegria.

Tem gente que fica “verde de fome”, tem gente que fica “amarela de fome”... tanto faz, porque ficar com fome é ruim de qualquer maneira. Por falta de tempo é ruim, por fazer dieta é desagradável e por falta de comida é desumano. Então, acho que não deveríamos ficar nem verdes e nem amarelos de fome, poderíamos ficar marrons de fome. Isso! Marrom não serve pra chocolate, mas serve pra fome.

E o sujeito que fica doente? Todo mundo comenta, “Nossa! O fulano está amarelo de tão doente!!!”. Eu penso que a gente deveria ficar amarelo de felicidade, de alegria... não de doença. A gente deveria ficar ocre de doente! Ufa... finalmente achei uma utilidade para a cor ocre. O lápis de cor ocre nunca mais vai sobrar inteiro quando todos os outros da caixa acabarem. Já podemos desenhar pessoas doentes e pintar de ocre. Perfeito!

Esporte, para brasileiro, tem a cor amarela. Amarelo-alegria, camisa amarela, amarelo-vitória, medalha amarelo-ouro, amarelo-torcida, amarelo-nação, sentimento amarelo de patriotismo esportivo... coisa de brasileiro! Amarelo-brasil!

Interessante, porém é o tal do amarelo-limão. Todo mundo sabe que cor é essa, mas será que alguém poderia indicar onde nasce tão rara maravilha da natureza, um limão amarelo? Limão fica amarelo de velho, de podre, de murcho, nada parecido com o vivo amarelo-limão.

Amarelo-ovo então, indiscutivelmente, não existe. Ovo é branco, quando muito marrom-avermelhado do ovo de galinha caipira. Gema, sim, pode ser meio amarela, mas, de verdade mesmo é mais chegada ao laranja.

Fica combinado assim: vamos nos vestir de amarelo no próximo reveillon! Só fica faltando decidir se vai ser amarelo... limão ou ovo.

terça-feira, 12 de maio de 2009

UM ACHADO...


Hoje, vou postar algo diferente, algo que não foi escrito por mim, mas que faz parte de tudo que sou.

Há pouco mais de 7 anos, minha querida avó partia para o resto de sua jornada.

Eu, a única neta mulher residente aqui no Brasil, de uma avó sem filhas mulheres, fui a responsável pela árdua e encantadora tarefa de arrumar seus pertences.

Olhei coisa por coisa, papel por papel, por menor que fosse e, no meio de tudo, encontrei essa joia, escrita pelas mãos já trêmulas de uma mulher que, em cada detalhe, fora fantástica.

Era época de Dia das Mães...


domingo, 10 de maio de 2009

HIBISCUS TILIACEUS

Por que caem as flores dos hibiscus? Elas estão lá, no chão, como um tapete que enfeita o caminho por que passam indiferentes, apaixonados, pensativos, observadores... passam todos aqueles que, por privilégio ou coincidência, caminham por ali.
É preciso caminhar por ali... passar apenas, andar apenas não basta! Só encontra a flor no chão aquele que caminha, pois caminhar é diferente de passar, de andar. Caminhar pressupõe fundir-se com o espaço em que transita, confundir-se com a paisagem, fruir a obra de arte que a natureza pintou, esculpiu para cada um de nossos olhos apressados e para cada um de nossos corações apaixonados.
Os que andam, passam... por cima das flores. Pisam as flores que caem dos hibiscus.
Os que caminham, não.
Os que caminham percebem até mesmo a beleza do amarelo avermelhado que marca o chão quando os que apenas andam pisam as flores que caem dos hibiscus.
E lá, ao chão, estão...
...as flores que caem dos hibiscus.
Por que caem as flores dos hibiscus?
Naquele dia enquanto em minha caminhada, recebia o presente de ver ali, ao chão, a maravilha das pétalas amarelas que, mexeriqueiras, fofocavam ao vento, não pude deixar de instigar a dúvida que aqueles pontos de luz amarelos claros me suscitavam. Por que estariam ali, ao chão, se ainda tão lindas não haviam murchado?
E o chão estava cheio delas. Eram muitas, sacudiam suavemente as pétalas ao movimento, ao ritmo do vento, ao som do marulhar das águas da lagoa que cercavam com sua magia. Era uma beleza salpicada ao chão. Por que tão belas não estavam onde nasceram, no alto das árvores que as deram à luz?
Olhei então para as árvores e, lá, ainda havia algumas delas, algumas flores. Por que caíram as demais? E achei, enfim, que caíam para fazer-nos olhar para cima, para as copas, sorrir e perceber como são especiais as árvores que deram à luz flores tão lindas. É... elas caem ao chão para fazer-nos olhar para cima.
Eram as flores dos hibiscus, mas tinham um nome de família: Hibiscus tiliaceus. Assim como os filhos que damos à luz... as flores também carregam consigo seus nomes de família. E, orgulhosas, suas mães as atiram ao chão, para que todos possam observar como são belas as flores dos hibiscus.
Ainda que, ali, estejam à mercê dos pés daqueles que apenas passam pela vida, estão também à disposição dos olhos daqueles que caminham.

Assim somos nós, mães, orgulhosas dos que trouxemos a esse mundo, os deixamos sair por aí, espalhando suas belezas... sujeitos aos pés daqueles que apenas passam pela vida, mas também aos olhares daqueles que caminham por ela e aprendem a admirar os seres especiais.
Admirados por outros seres especiais, nossos daniéis, matheus, rafaéis, pedros, guidos...nossas agathas, ligias, laíses...levam consigo os nomes que lhes demos.
Por que saem por aí nossas flores de hibiscus? ...nossos filhos?
Os caminheiros conseguirão observar até mesmo a beleza dos obstáculos que se apresentam em seus caminhos quando os que apenas passam “pisam as flores”.
Por que saem por aí nossos filhos?
Eles serão, mexeriqueiros e ao sabor do vento, pontos de luz que iluminarão outras tantas vidas especiais que cruzarem as suas.
E... Em suas belezas e em seus jeitos especiais de ser, os deixaremos sair por aí para fazer com que outros também OLHEM PARA CIMA.

Imagem 1: Hibiscus no chão da Lagoa Rodrigo de Freitas - mai/09 - por Márcia Helena

Imagem 2: Eu e meus filhos - Búzios - jan/07

sábado, 9 de maio de 2009

PEDRAS, PASSAGENS E CAMINHOS


Quando criança, ouvira, do avô, que a pedra estava no meio do caminho, que, no meio do caminho, havia uma pedra. “Ora!”, pensava, em meu andar infante, por um caminho ainda sem pedras, “Se era uma única pedra, para que repetir tantas vezes aqueles versos?”
— Desvie da pedra, vovô — eu dizia sorrindo.
E o avô repetia mais uma vez.
Eram versos de Drummond. Em sua casa, isso era coisa muito importante. Nos finais de tarde, sentava-se na varanda, em meio aos livros de poemas.
E vinham os vizinhos, e vinham os amigos, e vinham os parentes, e vinham as pessoas, vinham todas as pessoas.
Sem regras ou ordem, abriam os livros e liam. Algumas vezes, eu achava graça. Outras vezes, não entendia o que ouvia. Eram coisas por vezes bonitas, por vezes tristes. Mas eu só percebia a tristeza quando as moças ficavam com os olhos marejados. Eram poemas. E o avô repetia sempre:

“Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.”

E arrematava:
— Isso é Drummond, meu filho, Carlos Drummond.
Jamais esquecerei as palavras do avô, que, àquele tempo, não faziam para mim sentido algum. Eu sorria e dizia:
— Já sei, vô. A pedra...tava no meio do caminho...já sei.
Mas eu não sabia. Não sabia nada, porque não sabia o que era uma pedra no meio do caminho. Não sabia sequer o que era um caminho. Eu brincava. Eu sorria. Eu sonhava com um mundo colorido, do jeitinho que eu o conhecia. Sem pedras... e sem caminhos.
Cada vez que via uma pedra, catava. Juntava a outras que já estavam lá na caixinha, guardava debaixo da cama. As pessoas gostavam de ver o meu tesouro e me traziam pedras dos lugares por onde passavam. Pedras achadas, pedras compradas, meus amigos me traziam pedras. E eu as colecionava.
O avô contava que também tinha uma coleção de pedras, mas quando eu pedia para vê-las, ele dizia:
— Olhe para tudo o que está a minha volta e verá no que transformei cada pedra de minha coleção.
E eu olhava, mas não entendia.
O avô era poeta, trabalhara num jornal quando mais jovem e era conhecido como alguém muito inteligente pelos vizinhos, pelos amigos, pelos parentes, pelas pessoas, por todas as pessoas. Mas eu jamais ouvira nada sobre saber fazer mágicas, mágicas de transformar pedras em coisas. Nunca vi as pedras do avô.
E eu cresci.
Percebi que estava crescendo quando, de passagem, olhei para a primeira pedra de verdade. Olhei-a como olhava as pedras de meu tesouro da infância. Comecei a fazer de minha vida um caminho, assim como meu avô fizera tantos anos antes. E fui aprendendo a transformar pedras em coisas, em sonhos, em conquistas, em amores, em saberes, transformar minhas passagens em caminhos.
Cada vez que via uma pedra, não passava por ela. Eu a transpunha e guardava junto com as outras... mas já não era na caixinha debaixo da cama, era na vida, na passagem que eu ia transformando em caminho. Caminho daqueles em que havia pedras bem no meio, bem no meio do caminho.
Meus vizinhos, meus amigos, meus parentes, todas as pessoas me traziam pedras. Colocavam-nas no meio do caminho. E eu as colecionava.
Cada pedra era tal como um degrau, tal como uma ponte, nada fácil. Cada uma trazia a força que transformava minha passagem em caminho. Eu não desviava.
Entendi as palavras de Drummond na voz de meu avô. Eu brinquei, eu sorri, eu sonhei com um caminho colorido do jeito que eu queria, mesmo com pedras, apesar das pedras e justamente por causa delas.
Eu corri riscos, ousei, transpus as pedras, encurtei caminhos. E conquistei, construí. Transformei minhas pedras no tesouro que tenho.
Arrumei as pedras de minha antiga caixinha junto a tudo e a todos que estão a minha volta. Não virei poeta como o avô, mas entendi, por fim, para que repetir tantas vezes aqueles versos.
Não passei pela vida, caminhei.
Imagem: Estrada das Estâncias Hidrominerais - Minas Gerais - jun/08 - por Márcio Mantovani

sexta-feira, 8 de maio de 2009

ESPECIALIDADES DOS SANTOS

Sobre esse assunto, todo mundo tem um conselho a dar. Afinal, conselho é o que se dá sem parcimônia, não nos custa nada e ainda satisfaz a ânsia humana de meter-se à vida alheia.
Basta alguém dizer que sente uma dor qualquer, daquelas que médicos não conseguem curar, que, na falta de um novo médico para recomendar, prontamente, outro alguém recomenda um santo especialista. Para problemas na vista, Santa Luzia. Nos seios, Santa Ágata.
Mas os santos não resolvem exclusivamente problemas de saúde. Há um santo para cada tipo de problema. Problemas com animais, São Francisco de Assis. Problemas financeiros, Santa Edwiges. Problemas para arranjar casamento, Santo Antônio. E há os problemas de resolução impossível. Para esses, os insolúveis, da ordem do milagre, Santo Expedito.
Problemas para obter nota boa em exames, não se engane!, Santa Júlia ou Santa Tereza. Não insista com os santos homens, que, tradicionalmente, estão muito ocupados em manter sua fama de durões. Inácio, Bento, Agostinho, desista, é prova final, recuperação na certa.
Se já se encontra enfadado aquele que me lê, nesse discorrer das santificadas habilidades, antecipo-me a esclarecer que o caso que está prestes a ser narrado trata-se de um fato real, não meramente ilustrativo, decorrente da sabedoria popular acerca da especialidade dos santos.
A família era composta por pai, mãe, filho pequeno e dois cães.
Os cães, faz-se aqui necessário o parêntese, eram de ordens, gêneros, tamanhos e funções diferentes na dinâmica familiar. Exatamente pelas diferenças, a cadela, grande, forte e brava, tomava conta da casa, não podia nela entrar, comia e dormia ao relento e trabalhava dia e noite, sempre a postos, enquanto o cão, pequeno, fraco e manso, que nenhum benefício trazia para o funcionamento da casa, gozava de todas as regalias, dormia na cama dos pais, brincava com o filho e comia comida feita na panela da família.
Certamente, na viagem para o Reveillon, a cadela, sempre em serviço, ficou para tomar conta da casa, enquanto o cão viajou com a família a fim de estar junto com os demais familiares, passear nas praias e assistir ao espetáculo de fogos de artifício no Rio de Janeiro.
O problema é que o cão, por incrível que pareça a qualquer ser que conheça essa história, mete-se a fugir dos pais. Já foram muitos os episódios de fuga, com diferentes e inusitados desfechos. Fugir quando está a passeio parece-me normal. Fugir da própria casa sem conseguir a ela retornar é, no mínimo, um ato de ingratidão.
Pois bem, sem mais delongas, o cão ingrato fugiu mais uma vez. E mais uma vez a família ficou em polvorosa. Foi em uma cidade de veraneio, onde eram quase todos habitantes provisórios e já voltariam a suas cidades.
Quem teria ficado com o cão? Como ele estaria naquele exato momento? Estaria sentindo frio? Fome? Sede? As dúvidas e a tristeza tomaram conta da família. E não só dos pais e do filho. Também dos avós, dos tios, dos primos. Somente a cadela, que não parava nunca de trabalhar, não estava em desespero. Se não por falta de amores pelo cão, no mínimo, por não entender o que se passava ou por não ter sido dada a ela a fatídica notícia.
Cartazes foram espalhados por todos os cantos, oferecida recompensa em dinheiro. Os membros da família andavam por toda cidade em busca de ver o pelo prateado refletindo a luz do sol a cada esquina dobrada.
A essa altura, já me perguntas o que tem isso a ver com a história dos santos. E, a ti, antecipo-me a explicar.
Na corrida incessante por todo canto da cidade, perguntando aqui e ali sobre um cão prateado, o pai é interpelado por uma senhora que lhe pergunta se já havia prendido São Longuinho. Com cara de interrogação, ele responde à gentil senhora que já pedira ao tal santo, mas que acreditava não se fazer necessário prendê-lo.
Com pressa, já ia andando, quando a senhora, fazendo questão em dar-lhe o conselho salvador, chama o homem, que mesmo descrente, por pura educação, resolve dar ouvidos à amiga de ocasião.
— Preste atenção, meu rapaz! Está vendo este palito aqui? — e mostrando um graveto encontrado no chão, continuou. — Aqui está o São Longuinho.
A vontade de rir se misturava com a vontade de sumir dali para continuar a busca. Porém, o homem, resignado, permaneceu escutando o conselho.
— Então, vamos riscar com o palito um círculo na terra desse canteiro e prender o São Longuinho aqui no centro do círculo até ele encontrar seu cão.
Ufa! Era só isso? Tranquilizou-se e agradeceu.
— Muito obrigado, senhora. Tomara que São Longuinho me ajude mesmo.
E a senhora não deixou de avisar com veemência:
— Quando o cão aparecer, volte aqui e solte o São Longuinho.
Mas o cão não apareceu e a família voltou para casa.
A quilômetros de distância dali, tristes e já desesperançados, receberam um telefonema. Alguém tinha encontrado o cão.
Todos os riscos eram necessários para o resgate. A noite já caíra e o local indicado era de alta periculosidade. Nada impediria o pai determinado a encontrar seu cão.
Que grande alegria! Não era a primeira vez que sentiam aquele misto de alivio com felicidade. Afinal, o ingrato tinha essa mania.
O problema agora seria soltar o São Longuinho.
Por telefone, o pai explicou, à avó, a localização do canteiro em que prendera o santo. Como poderiam deixar preso lá o santo que achara o cão?
Para lá, foram a avó e a prima. Agachadas no meio da rua, revolviam o canteiro em busca do palito encravado, do São Longuinho encarcerado, e nada! Uma cena digna de filme mudo. Que explicação dariam ao dono do canteiro se fossem abordadas? Mas precisavam libertar o santo. Não conseguiram. Parece que o palito, quer dizer, São Longuinho tinha saído com as próprias pernas. E se palito tem pernas? Sei lá eu.
A verdade é que, meses depois do ocorrido, por ocasião da visita de uns tios e primos de fora, novamente o ingrato fugiu, enquanto a cadela, sempre a postos, tomava conta da casa. Não tomara conta do cão porque a ela nunca fora atribuída tal missão.
Dessa vez, nada de São Longuinho. A tia, desesperada por ter sido a causadora da fuga, apelou diretamente àquela que por tudo intercede: Nossa Senhora.
Não prometa nada a ela se não pretende cumprir, pois pedir a ela é furar todas as filas, é acreditar que nenhum santo subalterno seria capaz de resolver o entrave. E assim foi feito. Encontrado o fujão e pagas as promessas.
Agora, voltando às especialidades dos santos, pergunto a quem me puder responder: que santo seria o melhor especialista para convencer o pai a instalar uma tela protetora no portão da própria casa?
Imagem 1 : O pai, a mãe e o filho pequeno
Imagem 2: A cadela
Imagem 3: O ingrato
Imagem 4: São Longuinho

quinta-feira, 7 de maio de 2009

A GENTE NÃO SE ACOSTUMA

Estava eu, mais uma vez, com o olhar achado. Olhar achado, não olhar perdido. Por que chamar de “perdido” o olhar de quem se acha imerso em pensamentos? Perdido pra quem, de fora, tenta encontrar o que não lhe pertence, o que é irrefutavelmente do outro, só do outro. Único bem humano de pertencimento involuntário, o pensamento. É meu, mesmo que eu não deseje, mesmo que eu não reparta. É meu.
E, com o olhar achado, andava naquela tarde a perguntar-me o que há na cidade, que com tão profundas marcas presenteia quem por aqui passa, por aqui vive, trabalha, corre, sobrevive.
Encontrei-me sem resposta, já que a quantidade delas era enorme, múltipla escolha, todas as alternativas corretas. Em meio a tantas e tantas respostas, o olhar achava mais e mais, e mais, e mais ainda.
A gente não se acostuma. É a resposta correta. A única para explicar o que é que o Rio tem.
É isso. A gente não se acostuma com a violência, com o medo, com a miséria. Mas a gente também não se acostuma com a beleza, com os sorrisos, com o charme, com ela que, em mil detalhes, é cidade maravilhosa.
Não dá pra não se surpreender com o espelho da lagoa no cenário da serra, com sol, sem sol, com chuva, um espetáculo novo a cada dia. Como os grandes musicais da Broadway, mas de graça, para quem quer ver e também pra quem não faz questão. Está lá, há décadas, séculos em cartaz. A gente não se acostuma.
Quando a lua derrama seu brilho, são gotas de cristal nas marolas de Ipanema. A gente não se acostuma.
A gente não se acostuma a sair do trabalho e ver a praia cheia de gente. É alegria que não incomoda, que contagia, envolve. Semana que vem, nas férias, outro dia, eu vou também.
Se a pressa é grande, se o tempo é curto, se o olhar está realmente perdido e não acha o que é belo, mesmo assim, a gente não se acostuma. A beleza está lá, obra prima emoldurada pela vida, pelo cotidiano, pela arte de viver. Um dia, o olhar encontra, pára, pronto! Olhar achado.
Curvas para todos os olhares achados. Curvas no desenho da rua repleta de automóveis, ritmo, cadência urbana. Curvas nas margens da lagoa. Curva desenhada, lenta e poética das águas do mar nas areias da praia. Curvas da serra. Curvas dos corpos que caminham, mulheres de curvas, curvas de homens. A gente também não se acostuma.
Pôr do sol, daqui, dali, do Arpoador. A gente não se acostuma.
É isso que o Rio tem. É surpreendente. A gente não se acostuma.

Imagem: Pôr do Sol do Arpoador - jan/08 - por Márcia Helena

quarta-feira, 6 de maio de 2009

ESTRANHO PODER DA LINGUAGEM


Perguntou-me um amigo, há pouco, o que leio. Respondi-lhe, sem hesitar, que leio qualquer coisa, bulas de remédios, propagandas, manuais de instruções, que sou encantada pelo poder da linguagem. Fique claro, aqui, que, a escolher, fico com a boa literatura e, nesse campo, tenho definidas preferências.
O encanto pelo que leio cresce à proporção da quantidade de pensamentos emergidos pela admiração do encontro das palavras que se me apresentam.
Cai-me, então, às mãos, um encarte de farmácia. A julgar pela quantidade de páginas, sem ao menos abri-lo, já me jorram os pensamentos, incômodos como a primeira luz acesa ao amanhecer, que causa repulsa aos olhos, mas desvela o início do dia.
Que tipo de gente - ou gentes - lê encartes de farmácia? Imagens e mais imagens me interpelam a consciência. Por que não leio encartes de farmácia? Por que, às minhas mãos, servirão ao lixo, quando muito, à reciclagem?
Há gentes que procuram nos encartes razão para sair mais uma vez de casa. Já têm, nas costas, as marcas do tempo e a tão esperada aposentadoria se lhes apresenta como a forma mais cruel de dizer-lhes que já não têm o que fazer à rua. Ainda que no encarte esteja em graves letras o número de telefone para entrega domiciliar, há necessidade de escolher, verificar, de sair de casa, ver outras gentes, esperando pelo fio perdido de conversa que se pega com habilidade em qualquer fila a que se acomodem.
Há outras gentes que, atoladas em funções cotidianas medíocres, desprovidas da necessária criatividade e do estímulo ao uso da inteligência que desenferruja as engrenagens do pensamento, a deixar-se sempre a postos para o vital exercício da mente, estão sempre doentes. E, mais que doentes, estão sempre à cata de um novo sintoma que lhes abasteça do indispensável assunto para o trabalho do dia seguinte. Leem encarte de farmácia, com certeza.
Por que será que não leio encarte de farmácia?
De supermercado, leio. De loja de departamentos, também. Por que não o de farmácia?
Verdade é que se minha paixão pela leitura vem da possibilidade de instigar os mais ramificados pensamentos, para isso, serviu-me muito bem esse encarte de farmácia. Pergunto-me, agora, se preciso lê-lo literalmente ou se já fiz a agradável leitura, que não só trouxe-me pensamentos à mente, como, ao papel, essas palavras que escrevo.
Acabo de descobrir o inesperado. Sem saber, li o encarte da farmácia. Fiz minha leitura, é fato. Mas o li. Foi surpreendente.
E o fiz pelo magnânimo poder da linguagem. Uma pergunta despretensiosa de um amigo e, nas mãos, um encarte de farmácia. Isso é linguagem.

Imagem: A Leitora - Pierre Auguste Renoir