
Quando criança, ouvira, do avô, que a pedra estava no meio do caminho, que, no meio do caminho, havia uma pedra. “Ora!”, pensava, em meu andar infante, por um caminho ainda sem pedras, “Se era uma única pedra, para que repetir tantas vezes aqueles versos?”
— Desvie da pedra, vovô — eu dizia sorrindo.
E o avô repetia mais uma vez.
Eram versos de Drummond. Em sua casa, isso era coisa muito importante. Nos finais de tarde, sentava-se na varanda, em meio aos livros de poemas.
E vinham os vizinhos, e vinham os amigos, e vinham os parentes, e vinham as pessoas, vinham todas as pessoas.
Sem regras ou ordem, abriam os livros e liam. Algumas vezes, eu achava graça. Outras vezes, não entendia o que ouvia. Eram coisas por vezes bonitas, por vezes tristes. Mas eu só percebia a tristeza quando as moças ficavam com os olhos marejados. Eram poemas. E o avô repetia sempre:
— Desvie da pedra, vovô — eu dizia sorrindo.
E o avô repetia mais uma vez.
Eram versos de Drummond. Em sua casa, isso era coisa muito importante. Nos finais de tarde, sentava-se na varanda, em meio aos livros de poemas.
E vinham os vizinhos, e vinham os amigos, e vinham os parentes, e vinham as pessoas, vinham todas as pessoas.
Sem regras ou ordem, abriam os livros e liam. Algumas vezes, eu achava graça. Outras vezes, não entendia o que ouvia. Eram coisas por vezes bonitas, por vezes tristes. Mas eu só percebia a tristeza quando as moças ficavam com os olhos marejados. Eram poemas. E o avô repetia sempre:
“Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.”
E arrematava:
— Isso é Drummond, meu filho, Carlos Drummond.
Jamais esquecerei as palavras do avô, que, àquele tempo, não faziam para mim sentido algum. Eu sorria e dizia:
— Já sei, vô. A pedra...tava no meio do caminho...já sei.
Mas eu não sabia. Não sabia nada, porque não sabia o que era uma pedra no meio do caminho. Não sabia sequer o que era um caminho. Eu brincava. Eu sorria. Eu sonhava com um mundo colorido, do jeitinho que eu o conhecia. Sem pedras... e sem caminhos.
Cada vez que via uma pedra, catava. Juntava a outras que já estavam lá na caixinha, guardava debaixo da cama. As pessoas gostavam de ver o meu tesouro e me traziam pedras dos lugares por onde passavam. Pedras achadas, pedras compradas, meus amigos me traziam pedras. E eu as colecionava.
O avô contava que também tinha uma coleção de pedras, mas quando eu pedia para vê-las, ele dizia:
— Olhe para tudo o que está a minha volta e verá no que transformei cada pedra de minha coleção.
E eu olhava, mas não entendia.
O avô era poeta, trabalhara num jornal quando mais jovem e era conhecido como alguém muito inteligente pelos vizinhos, pelos amigos, pelos parentes, pelas pessoas, por todas as pessoas. Mas eu jamais ouvira nada sobre saber fazer mágicas, mágicas de transformar pedras em coisas. Nunca vi as pedras do avô.
E eu cresci.
Percebi que estava crescendo quando, de passagem, olhei para a primeira pedra de verdade. Olhei-a como olhava as pedras de meu tesouro da infância. Comecei a fazer de minha vida um caminho, assim como meu avô fizera tantos anos antes. E fui aprendendo a transformar pedras em coisas, em sonhos, em conquistas, em amores, em saberes, transformar minhas passagens em caminhos.
Cada vez que via uma pedra, não passava por ela. Eu a transpunha e guardava junto com as outras... mas já não era na caixinha debaixo da cama, era na vida, na passagem que eu ia transformando em caminho. Caminho daqueles em que havia pedras bem no meio, bem no meio do caminho.
Meus vizinhos, meus amigos, meus parentes, todas as pessoas me traziam pedras. Colocavam-nas no meio do caminho. E eu as colecionava.
Cada pedra era tal como um degrau, tal como uma ponte, nada fácil. Cada uma trazia a força que transformava minha passagem em caminho. Eu não desviava.
Entendi as palavras de Drummond na voz de meu avô. Eu brinquei, eu sorri, eu sonhei com um caminho colorido do jeito que eu queria, mesmo com pedras, apesar das pedras e justamente por causa delas.
Eu corri riscos, ousei, transpus as pedras, encurtei caminhos. E conquistei, construí. Transformei minhas pedras no tesouro que tenho.
Arrumei as pedras de minha antiga caixinha junto a tudo e a todos que estão a minha volta. Não virei poeta como o avô, mas entendi, por fim, para que repetir tantas vezes aqueles versos.
Não passei pela vida, caminhei.
Imagem: Estrada das Estâncias Hidrominerais - Minas Gerais - jun/08 - por Márcio Mantovani

Um comentário:
Lindo esse texto tb!!
Ainda estou colecionenaod pedras, mas estou apredendo a transformá-las em coisas!!
Boa semana pra vc!
bjs
=)
Postar um comentário