Sobre esse assunto, todo mundo tem um conselho a dar. Afinal, conselho é o que se dá sem parcimônia, não nos custa nada e ainda satisfaz a ânsia humana de meter-se à vida alheia.
Basta alguém dizer que sente uma dor qualquer, daquelas que médicos não conseguem curar, que, na falta de um novo médico para recomendar, prontamente, outro alguém recomenda um santo especialista. Para problemas na vista, Santa Luzia. Nos seios, Santa Ágata.
Mas os santos não resolvem exclusivamente problemas de saúde. Há um santo para cada tipo de problema. Problemas com animais, São Francisco de Assis. Problemas financeiros, Santa Edwiges. Problemas para arranjar casamento, Santo Antônio. E há os problemas de resolução impossível. Para esses, os insolúveis, da ordem do milagre, Santo Expedito.
Problemas para obter nota boa em exames, não se engane!, Santa Júlia ou Santa Tereza. Não insista com os santos homens, que, tradicionalmente, estão muito ocupados em manter sua fama de durões. Inácio, Bento, Agostinho, desista, é prova final, recuperação na certa.
Se já se encontra enfadado aquele que me lê, nesse discorrer das santificadas habilidades, antecipo-me a esclarecer que o caso que está prestes a ser narrado trata-se de um fato real, não meramente ilustrativo, decorrente da sabedoria popular acerca da especialidade dos santos.
A família era composta por pai, mãe, filho pequeno e dois cães.
Basta alguém dizer que sente uma dor qualquer, daquelas que médicos não conseguem curar, que, na falta de um novo médico para recomendar, prontamente, outro alguém recomenda um santo especialista. Para problemas na vista, Santa Luzia. Nos seios, Santa Ágata.
Mas os santos não resolvem exclusivamente problemas de saúde. Há um santo para cada tipo de problema. Problemas com animais, São Francisco de Assis. Problemas financeiros, Santa Edwiges. Problemas para arranjar casamento, Santo Antônio. E há os problemas de resolução impossível. Para esses, os insolúveis, da ordem do milagre, Santo Expedito.
Problemas para obter nota boa em exames, não se engane!, Santa Júlia ou Santa Tereza. Não insista com os santos homens, que, tradicionalmente, estão muito ocupados em manter sua fama de durões. Inácio, Bento, Agostinho, desista, é prova final, recuperação na certa.
Se já se encontra enfadado aquele que me lê, nesse discorrer das santificadas habilidades, antecipo-me a esclarecer que o caso que está prestes a ser narrado trata-se de um fato real, não meramente ilustrativo, decorrente da sabedoria popular acerca da especialidade dos santos.
A família era composta por pai, mãe, filho pequeno e dois cães.
Os cães, faz-se aqui necessário o parêntese, eram de ordens, gêneros, tamanhos e funções diferentes na dinâmica familiar. Exatamente pelas diferenças, a cadela, grande, forte e brava, tomava conta da casa, não podia nela entrar, comia e dormia ao relento e trabalhava dia e noite, sempre a postos, enquanto o cão, pequeno, fraco e manso, que nenhum benefício trazia para o funcionamento da casa, gozava de todas as regalias, dormia na cama dos pais, brincava com o filho e comia comida feita na panela da família.O problema é que o cão, por incrível que pareça a qualquer ser que conheça essa história, mete-se a fugir dos pais. Já foram muitos os episódios de fuga, com diferentes e inusitados desfechos. Fugir quando está a passeio parece-me normal. Fugir da própria casa sem conseguir a ela retornar é, no mínimo, um ato de ingratidão.
Pois bem, sem mais delongas, o cão ingrato fugiu mais uma vez. E mais uma vez a família ficou em polvorosa. Foi em uma cidade de veraneio, onde eram quase todos habitantes provisórios e já voltariam a suas cidades.
Quem teria ficado com o cão? Como ele estaria naquele exato momento? Estaria sentindo frio? Fome? Sede? As dúvidas e a tristeza tomaram conta da família. E não só dos pais e do filho. Também dos avós, dos tios, dos primos. Somente a cadela, que não parava nunca de trabalhar, não estava em desespero. Se não por falta de amores pelo cão, no mínimo, por não entender o que se passava ou por não ter sido dada a ela a fatídica notícia.

Cartazes foram espalhados por todos os cantos, oferecida recompensa em dinheiro. Os membros da família andavam por toda cidade em busca de ver o pelo prateado refletindo a luz do sol a cada esquina dobrada.
A essa altura, já me perguntas o que tem isso a ver com a história dos santos. E, a ti, antecipo-me a explicar.
Na corrida incessante por todo canto da cidade, perguntando aqui e ali sobre um cão prateado, o pai é interpelado por uma senhora que lhe pergunta se já havia prendido São Longuinho. Com cara de interrogação, ele responde à gentil senhora que já pedira ao tal santo, mas que acreditava não se fazer necessário prendê-lo.
Com pressa, já ia andando, quando a senhora, fazendo questão em dar-lhe o conselho salvador, chama o homem, que mesmo descrente, por pura educação, resolve dar ouvidos à amiga de ocasião.
— Preste atenção, meu rapaz! Está vendo este palito aqui? — e mostrando um graveto encontrado no chão, continuou. — Aqui está o São Longuinho.
A vontade de rir se misturava com a vontade de sumir dali para continuar a busca. Porém, o homem, resignado, permaneceu escutando o conselho.
— Então, vamos riscar com o palito um círculo na terra desse canteiro e prender o São Longuinho aqui no centro do círculo até ele encontrar seu cão.
Ufa! Era só isso? Tranquilizou-se e agradeceu.
— Muito obrigado, senhora. Tomara que São Longuinho me ajude mesmo.E a senhora não deixou de avisar com veemência:
— Quando o cão aparecer, volte aqui e solte o São Longuinho.
Mas o cão não apareceu e a família voltou para casa.
A quilômetros de distância dali, tristes e já desesperançados, receberam um telefonema. Alguém tinha encontrado o cão.
Todos os riscos eram necessários para o resgate. A noite já caíra e o local indicado era de alta periculosidade. Nada impediria o pai determinado a encontrar seu cão.
Que grande alegria! Não era a primeira vez que sentiam aquele misto de alivio com felicidade. Afinal, o ingrato tinha essa mania.
O problema agora seria soltar o São Longuinho.
Por telefone, o pai explicou, à avó, a localização do canteiro em que prendera o santo. Como poderiam deixar preso lá o santo que achara o cão?
Para lá, foram a avó e a prima. Agachadas no meio da rua, revolviam o canteiro em busca do palito encravado, do São Longuinho encarcerado, e nada! Uma cena digna de filme mudo. Que explicação dariam ao dono do canteiro se fossem abordadas? Mas precisavam libertar o santo. Não conseguiram. Parece que o palito, quer dizer, São Longuinho tinha saído com as próprias pernas. E se palito tem pernas? Sei lá eu.
A verdade é que, meses depois do ocorrido, por ocasião da visita de uns tios e primos de fora, novamente o ingrato fugiu, enquanto a cadela, sempre a postos, tomava conta da casa. Não tomara conta do cão porque a ela nunca fora atribuída tal missão.
Dessa vez, nada de São Longuinho. A tia, desesperada por ter sido a causadora da fuga, apelou diretamente àquela que por tudo intercede: Nossa Senhora.
Não prometa nada a ela se não pretende cumprir, pois pedir a ela é furar todas as filas, é acreditar que nenhum santo subalterno seria capaz de resolver o entrave. E assim foi feito. Encontrado o fujão e pagas as promessas.
Agora, voltando às especialidades dos santos, pergunto a quem me puder responder: que santo seria o melhor especialista para convencer o pai a instalar uma tela protetora no portão da própria casa?
Imagem 1 : O pai, a mãe e o filho pequeno
Imagem 2: A cadela
Imagem 3: O ingrato
Imagem 4: São Longuinho

2 comentários:
Bem, como personagem desta história estou eu aqui pra contar o seguinte: Finalmente, pedindo a todos os santos, a tal grade de proteção foi instalada. E por incrivel que pareça, o cão ingrato já não gosta mais de fugir de casa. Vai entender????
Luciana (a mãe)
Acreditem...Uns pensam que é folclore,não é.Eu sou devota de São Longuinho. Quando perco algo, é só pensar nele, que encontro o que havia perdido. Só você mesmo, Márcia, para escrever um texto tão interessante.E o mais incrível,é o São Longuinho aparecer no seu texto.Não preciso nem falar o que eu achei sobre esse texto, né?!
Jacqueline (amiga).
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