
Perguntou-me um amigo, há pouco, o que leio. Respondi-lhe, sem hesitar, que leio qualquer coisa, bulas de remédios, propagandas, manuais de instruções, que sou encantada pelo poder da linguagem. Fique claro, aqui, que, a escolher, fico com a boa literatura e, nesse campo, tenho definidas preferências.
O encanto pelo que leio cresce à proporção da quantidade de pensamentos emergidos pela admiração do encontro das palavras que se me apresentam.
Cai-me, então, às mãos, um encarte de farmácia. A julgar pela quantidade de páginas, sem ao menos abri-lo, já me jorram os pensamentos, incômodos como a primeira luz acesa ao amanhecer, que causa repulsa aos olhos, mas desvela o início do dia.
Que tipo de gente - ou gentes - lê encartes de farmácia? Imagens e mais imagens me interpelam a consciência. Por que não leio encartes de farmácia? Por que, às minhas mãos, servirão ao lixo, quando muito, à reciclagem?
Há gentes que procuram nos encartes razão para sair mais uma vez de casa. Já têm, nas costas, as marcas do tempo e a tão esperada aposentadoria se lhes apresenta como a forma mais cruel de dizer-lhes que já não têm o que fazer à rua. Ainda que no encarte esteja em graves letras o número de telefone para entrega domiciliar, há necessidade de escolher, verificar, de sair de casa, ver outras gentes, esperando pelo fio perdido de conversa que se pega com habilidade em qualquer fila a que se acomodem.
Há outras gentes que, atoladas em funções cotidianas medíocres, desprovidas da necessária criatividade e do estímulo ao uso da inteligência que desenferruja as engrenagens do pensamento, a deixar-se sempre a postos para o vital exercício da mente, estão sempre doentes. E, mais que doentes, estão sempre à cata de um novo sintoma que lhes abasteça do indispensável assunto para o trabalho do dia seguinte. Leem encarte de farmácia, com certeza.
Por que será que não leio encarte de farmácia?
De supermercado, leio. De loja de departamentos, também. Por que não o de farmácia?
Verdade é que se minha paixão pela leitura vem da possibilidade de instigar os mais ramificados pensamentos, para isso, serviu-me muito bem esse encarte de farmácia. Pergunto-me, agora, se preciso lê-lo literalmente ou se já fiz a agradável leitura, que não só trouxe-me pensamentos à mente, como, ao papel, essas palavras que escrevo.
Acabo de descobrir o inesperado. Sem saber, li o encarte da farmácia. Fiz minha leitura, é fato. Mas o li. Foi surpreendente.
E o fiz pelo magnânimo poder da linguagem. Uma pergunta despretensiosa de um amigo e, nas mãos, um encarte de farmácia. Isso é linguagem.
O encanto pelo que leio cresce à proporção da quantidade de pensamentos emergidos pela admiração do encontro das palavras que se me apresentam.
Cai-me, então, às mãos, um encarte de farmácia. A julgar pela quantidade de páginas, sem ao menos abri-lo, já me jorram os pensamentos, incômodos como a primeira luz acesa ao amanhecer, que causa repulsa aos olhos, mas desvela o início do dia.
Que tipo de gente - ou gentes - lê encartes de farmácia? Imagens e mais imagens me interpelam a consciência. Por que não leio encartes de farmácia? Por que, às minhas mãos, servirão ao lixo, quando muito, à reciclagem?
Há gentes que procuram nos encartes razão para sair mais uma vez de casa. Já têm, nas costas, as marcas do tempo e a tão esperada aposentadoria se lhes apresenta como a forma mais cruel de dizer-lhes que já não têm o que fazer à rua. Ainda que no encarte esteja em graves letras o número de telefone para entrega domiciliar, há necessidade de escolher, verificar, de sair de casa, ver outras gentes, esperando pelo fio perdido de conversa que se pega com habilidade em qualquer fila a que se acomodem.
Há outras gentes que, atoladas em funções cotidianas medíocres, desprovidas da necessária criatividade e do estímulo ao uso da inteligência que desenferruja as engrenagens do pensamento, a deixar-se sempre a postos para o vital exercício da mente, estão sempre doentes. E, mais que doentes, estão sempre à cata de um novo sintoma que lhes abasteça do indispensável assunto para o trabalho do dia seguinte. Leem encarte de farmácia, com certeza.
Por que será que não leio encarte de farmácia?
De supermercado, leio. De loja de departamentos, também. Por que não o de farmácia?
Verdade é que se minha paixão pela leitura vem da possibilidade de instigar os mais ramificados pensamentos, para isso, serviu-me muito bem esse encarte de farmácia. Pergunto-me, agora, se preciso lê-lo literalmente ou se já fiz a agradável leitura, que não só trouxe-me pensamentos à mente, como, ao papel, essas palavras que escrevo.
Acabo de descobrir o inesperado. Sem saber, li o encarte da farmácia. Fiz minha leitura, é fato. Mas o li. Foi surpreendente.
E o fiz pelo magnânimo poder da linguagem. Uma pergunta despretensiosa de um amigo e, nas mãos, um encarte de farmácia. Isso é linguagem.
Imagem: A Leitora - Pierre Auguste Renoir

2 comentários:
Eu inicío a leitura por pura curiosidade .
Não julgo antecipadamente , nem alimento preconceitos .
Minha profissão me exercita nessa isenção .
Dou sempre um crédito inicial .
Carmen Marina
Adorei! Deu vontade de quero mais...
Beijo, Jacqueline
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