Um exercício para enxergar o que, como a sombra, vê-se bem na claridade, mas perde-se na penumbra.

terça-feira, 12 de maio de 2009

UM ACHADO...


Hoje, vou postar algo diferente, algo que não foi escrito por mim, mas que faz parte de tudo que sou.

Há pouco mais de 7 anos, minha querida avó partia para o resto de sua jornada.

Eu, a única neta mulher residente aqui no Brasil, de uma avó sem filhas mulheres, fui a responsável pela árdua e encantadora tarefa de arrumar seus pertences.

Olhei coisa por coisa, papel por papel, por menor que fosse e, no meio de tudo, encontrei essa joia, escrita pelas mãos já trêmulas de uma mulher que, em cada detalhe, fora fantástica.

Era época de Dia das Mães...


domingo, 10 de maio de 2009

HIBISCUS TILIACEUS

Por que caem as flores dos hibiscus? Elas estão lá, no chão, como um tapete que enfeita o caminho por que passam indiferentes, apaixonados, pensativos, observadores... passam todos aqueles que, por privilégio ou coincidência, caminham por ali.
É preciso caminhar por ali... passar apenas, andar apenas não basta! Só encontra a flor no chão aquele que caminha, pois caminhar é diferente de passar, de andar. Caminhar pressupõe fundir-se com o espaço em que transita, confundir-se com a paisagem, fruir a obra de arte que a natureza pintou, esculpiu para cada um de nossos olhos apressados e para cada um de nossos corações apaixonados.
Os que andam, passam... por cima das flores. Pisam as flores que caem dos hibiscus.
Os que caminham, não.
Os que caminham percebem até mesmo a beleza do amarelo avermelhado que marca o chão quando os que apenas andam pisam as flores que caem dos hibiscus.
E lá, ao chão, estão...
...as flores que caem dos hibiscus.
Por que caem as flores dos hibiscus?
Naquele dia enquanto em minha caminhada, recebia o presente de ver ali, ao chão, a maravilha das pétalas amarelas que, mexeriqueiras, fofocavam ao vento, não pude deixar de instigar a dúvida que aqueles pontos de luz amarelos claros me suscitavam. Por que estariam ali, ao chão, se ainda tão lindas não haviam murchado?
E o chão estava cheio delas. Eram muitas, sacudiam suavemente as pétalas ao movimento, ao ritmo do vento, ao som do marulhar das águas da lagoa que cercavam com sua magia. Era uma beleza salpicada ao chão. Por que tão belas não estavam onde nasceram, no alto das árvores que as deram à luz?
Olhei então para as árvores e, lá, ainda havia algumas delas, algumas flores. Por que caíram as demais? E achei, enfim, que caíam para fazer-nos olhar para cima, para as copas, sorrir e perceber como são especiais as árvores que deram à luz flores tão lindas. É... elas caem ao chão para fazer-nos olhar para cima.
Eram as flores dos hibiscus, mas tinham um nome de família: Hibiscus tiliaceus. Assim como os filhos que damos à luz... as flores também carregam consigo seus nomes de família. E, orgulhosas, suas mães as atiram ao chão, para que todos possam observar como são belas as flores dos hibiscus.
Ainda que, ali, estejam à mercê dos pés daqueles que apenas passam pela vida, estão também à disposição dos olhos daqueles que caminham.

Assim somos nós, mães, orgulhosas dos que trouxemos a esse mundo, os deixamos sair por aí, espalhando suas belezas... sujeitos aos pés daqueles que apenas passam pela vida, mas também aos olhares daqueles que caminham por ela e aprendem a admirar os seres especiais.
Admirados por outros seres especiais, nossos daniéis, matheus, rafaéis, pedros, guidos...nossas agathas, ligias, laíses...levam consigo os nomes que lhes demos.
Por que saem por aí nossas flores de hibiscus? ...nossos filhos?
Os caminheiros conseguirão observar até mesmo a beleza dos obstáculos que se apresentam em seus caminhos quando os que apenas passam “pisam as flores”.
Por que saem por aí nossos filhos?
Eles serão, mexeriqueiros e ao sabor do vento, pontos de luz que iluminarão outras tantas vidas especiais que cruzarem as suas.
E... Em suas belezas e em seus jeitos especiais de ser, os deixaremos sair por aí para fazer com que outros também OLHEM PARA CIMA.

Imagem 1: Hibiscus no chão da Lagoa Rodrigo de Freitas - mai/09 - por Márcia Helena

Imagem 2: Eu e meus filhos - Búzios - jan/07

sábado, 9 de maio de 2009

PEDRAS, PASSAGENS E CAMINHOS


Quando criança, ouvira, do avô, que a pedra estava no meio do caminho, que, no meio do caminho, havia uma pedra. “Ora!”, pensava, em meu andar infante, por um caminho ainda sem pedras, “Se era uma única pedra, para que repetir tantas vezes aqueles versos?”
— Desvie da pedra, vovô — eu dizia sorrindo.
E o avô repetia mais uma vez.
Eram versos de Drummond. Em sua casa, isso era coisa muito importante. Nos finais de tarde, sentava-se na varanda, em meio aos livros de poemas.
E vinham os vizinhos, e vinham os amigos, e vinham os parentes, e vinham as pessoas, vinham todas as pessoas.
Sem regras ou ordem, abriam os livros e liam. Algumas vezes, eu achava graça. Outras vezes, não entendia o que ouvia. Eram coisas por vezes bonitas, por vezes tristes. Mas eu só percebia a tristeza quando as moças ficavam com os olhos marejados. Eram poemas. E o avô repetia sempre:

“Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.”

E arrematava:
— Isso é Drummond, meu filho, Carlos Drummond.
Jamais esquecerei as palavras do avô, que, àquele tempo, não faziam para mim sentido algum. Eu sorria e dizia:
— Já sei, vô. A pedra...tava no meio do caminho...já sei.
Mas eu não sabia. Não sabia nada, porque não sabia o que era uma pedra no meio do caminho. Não sabia sequer o que era um caminho. Eu brincava. Eu sorria. Eu sonhava com um mundo colorido, do jeitinho que eu o conhecia. Sem pedras... e sem caminhos.
Cada vez que via uma pedra, catava. Juntava a outras que já estavam lá na caixinha, guardava debaixo da cama. As pessoas gostavam de ver o meu tesouro e me traziam pedras dos lugares por onde passavam. Pedras achadas, pedras compradas, meus amigos me traziam pedras. E eu as colecionava.
O avô contava que também tinha uma coleção de pedras, mas quando eu pedia para vê-las, ele dizia:
— Olhe para tudo o que está a minha volta e verá no que transformei cada pedra de minha coleção.
E eu olhava, mas não entendia.
O avô era poeta, trabalhara num jornal quando mais jovem e era conhecido como alguém muito inteligente pelos vizinhos, pelos amigos, pelos parentes, pelas pessoas, por todas as pessoas. Mas eu jamais ouvira nada sobre saber fazer mágicas, mágicas de transformar pedras em coisas. Nunca vi as pedras do avô.
E eu cresci.
Percebi que estava crescendo quando, de passagem, olhei para a primeira pedra de verdade. Olhei-a como olhava as pedras de meu tesouro da infância. Comecei a fazer de minha vida um caminho, assim como meu avô fizera tantos anos antes. E fui aprendendo a transformar pedras em coisas, em sonhos, em conquistas, em amores, em saberes, transformar minhas passagens em caminhos.
Cada vez que via uma pedra, não passava por ela. Eu a transpunha e guardava junto com as outras... mas já não era na caixinha debaixo da cama, era na vida, na passagem que eu ia transformando em caminho. Caminho daqueles em que havia pedras bem no meio, bem no meio do caminho.
Meus vizinhos, meus amigos, meus parentes, todas as pessoas me traziam pedras. Colocavam-nas no meio do caminho. E eu as colecionava.
Cada pedra era tal como um degrau, tal como uma ponte, nada fácil. Cada uma trazia a força que transformava minha passagem em caminho. Eu não desviava.
Entendi as palavras de Drummond na voz de meu avô. Eu brinquei, eu sorri, eu sonhei com um caminho colorido do jeito que eu queria, mesmo com pedras, apesar das pedras e justamente por causa delas.
Eu corri riscos, ousei, transpus as pedras, encurtei caminhos. E conquistei, construí. Transformei minhas pedras no tesouro que tenho.
Arrumei as pedras de minha antiga caixinha junto a tudo e a todos que estão a minha volta. Não virei poeta como o avô, mas entendi, por fim, para que repetir tantas vezes aqueles versos.
Não passei pela vida, caminhei.
Imagem: Estrada das Estâncias Hidrominerais - Minas Gerais - jun/08 - por Márcio Mantovani

sexta-feira, 8 de maio de 2009

ESPECIALIDADES DOS SANTOS

Sobre esse assunto, todo mundo tem um conselho a dar. Afinal, conselho é o que se dá sem parcimônia, não nos custa nada e ainda satisfaz a ânsia humana de meter-se à vida alheia.
Basta alguém dizer que sente uma dor qualquer, daquelas que médicos não conseguem curar, que, na falta de um novo médico para recomendar, prontamente, outro alguém recomenda um santo especialista. Para problemas na vista, Santa Luzia. Nos seios, Santa Ágata.
Mas os santos não resolvem exclusivamente problemas de saúde. Há um santo para cada tipo de problema. Problemas com animais, São Francisco de Assis. Problemas financeiros, Santa Edwiges. Problemas para arranjar casamento, Santo Antônio. E há os problemas de resolução impossível. Para esses, os insolúveis, da ordem do milagre, Santo Expedito.
Problemas para obter nota boa em exames, não se engane!, Santa Júlia ou Santa Tereza. Não insista com os santos homens, que, tradicionalmente, estão muito ocupados em manter sua fama de durões. Inácio, Bento, Agostinho, desista, é prova final, recuperação na certa.
Se já se encontra enfadado aquele que me lê, nesse discorrer das santificadas habilidades, antecipo-me a esclarecer que o caso que está prestes a ser narrado trata-se de um fato real, não meramente ilustrativo, decorrente da sabedoria popular acerca da especialidade dos santos.
A família era composta por pai, mãe, filho pequeno e dois cães.
Os cães, faz-se aqui necessário o parêntese, eram de ordens, gêneros, tamanhos e funções diferentes na dinâmica familiar. Exatamente pelas diferenças, a cadela, grande, forte e brava, tomava conta da casa, não podia nela entrar, comia e dormia ao relento e trabalhava dia e noite, sempre a postos, enquanto o cão, pequeno, fraco e manso, que nenhum benefício trazia para o funcionamento da casa, gozava de todas as regalias, dormia na cama dos pais, brincava com o filho e comia comida feita na panela da família.
Certamente, na viagem para o Reveillon, a cadela, sempre em serviço, ficou para tomar conta da casa, enquanto o cão viajou com a família a fim de estar junto com os demais familiares, passear nas praias e assistir ao espetáculo de fogos de artifício no Rio de Janeiro.
O problema é que o cão, por incrível que pareça a qualquer ser que conheça essa história, mete-se a fugir dos pais. Já foram muitos os episódios de fuga, com diferentes e inusitados desfechos. Fugir quando está a passeio parece-me normal. Fugir da própria casa sem conseguir a ela retornar é, no mínimo, um ato de ingratidão.
Pois bem, sem mais delongas, o cão ingrato fugiu mais uma vez. E mais uma vez a família ficou em polvorosa. Foi em uma cidade de veraneio, onde eram quase todos habitantes provisórios e já voltariam a suas cidades.
Quem teria ficado com o cão? Como ele estaria naquele exato momento? Estaria sentindo frio? Fome? Sede? As dúvidas e a tristeza tomaram conta da família. E não só dos pais e do filho. Também dos avós, dos tios, dos primos. Somente a cadela, que não parava nunca de trabalhar, não estava em desespero. Se não por falta de amores pelo cão, no mínimo, por não entender o que se passava ou por não ter sido dada a ela a fatídica notícia.
Cartazes foram espalhados por todos os cantos, oferecida recompensa em dinheiro. Os membros da família andavam por toda cidade em busca de ver o pelo prateado refletindo a luz do sol a cada esquina dobrada.
A essa altura, já me perguntas o que tem isso a ver com a história dos santos. E, a ti, antecipo-me a explicar.
Na corrida incessante por todo canto da cidade, perguntando aqui e ali sobre um cão prateado, o pai é interpelado por uma senhora que lhe pergunta se já havia prendido São Longuinho. Com cara de interrogação, ele responde à gentil senhora que já pedira ao tal santo, mas que acreditava não se fazer necessário prendê-lo.
Com pressa, já ia andando, quando a senhora, fazendo questão em dar-lhe o conselho salvador, chama o homem, que mesmo descrente, por pura educação, resolve dar ouvidos à amiga de ocasião.
— Preste atenção, meu rapaz! Está vendo este palito aqui? — e mostrando um graveto encontrado no chão, continuou. — Aqui está o São Longuinho.
A vontade de rir se misturava com a vontade de sumir dali para continuar a busca. Porém, o homem, resignado, permaneceu escutando o conselho.
— Então, vamos riscar com o palito um círculo na terra desse canteiro e prender o São Longuinho aqui no centro do círculo até ele encontrar seu cão.
Ufa! Era só isso? Tranquilizou-se e agradeceu.
— Muito obrigado, senhora. Tomara que São Longuinho me ajude mesmo.
E a senhora não deixou de avisar com veemência:
— Quando o cão aparecer, volte aqui e solte o São Longuinho.
Mas o cão não apareceu e a família voltou para casa.
A quilômetros de distância dali, tristes e já desesperançados, receberam um telefonema. Alguém tinha encontrado o cão.
Todos os riscos eram necessários para o resgate. A noite já caíra e o local indicado era de alta periculosidade. Nada impediria o pai determinado a encontrar seu cão.
Que grande alegria! Não era a primeira vez que sentiam aquele misto de alivio com felicidade. Afinal, o ingrato tinha essa mania.
O problema agora seria soltar o São Longuinho.
Por telefone, o pai explicou, à avó, a localização do canteiro em que prendera o santo. Como poderiam deixar preso lá o santo que achara o cão?
Para lá, foram a avó e a prima. Agachadas no meio da rua, revolviam o canteiro em busca do palito encravado, do São Longuinho encarcerado, e nada! Uma cena digna de filme mudo. Que explicação dariam ao dono do canteiro se fossem abordadas? Mas precisavam libertar o santo. Não conseguiram. Parece que o palito, quer dizer, São Longuinho tinha saído com as próprias pernas. E se palito tem pernas? Sei lá eu.
A verdade é que, meses depois do ocorrido, por ocasião da visita de uns tios e primos de fora, novamente o ingrato fugiu, enquanto a cadela, sempre a postos, tomava conta da casa. Não tomara conta do cão porque a ela nunca fora atribuída tal missão.
Dessa vez, nada de São Longuinho. A tia, desesperada por ter sido a causadora da fuga, apelou diretamente àquela que por tudo intercede: Nossa Senhora.
Não prometa nada a ela se não pretende cumprir, pois pedir a ela é furar todas as filas, é acreditar que nenhum santo subalterno seria capaz de resolver o entrave. E assim foi feito. Encontrado o fujão e pagas as promessas.
Agora, voltando às especialidades dos santos, pergunto a quem me puder responder: que santo seria o melhor especialista para convencer o pai a instalar uma tela protetora no portão da própria casa?
Imagem 1 : O pai, a mãe e o filho pequeno
Imagem 2: A cadela
Imagem 3: O ingrato
Imagem 4: São Longuinho

quinta-feira, 7 de maio de 2009

A GENTE NÃO SE ACOSTUMA

Estava eu, mais uma vez, com o olhar achado. Olhar achado, não olhar perdido. Por que chamar de “perdido” o olhar de quem se acha imerso em pensamentos? Perdido pra quem, de fora, tenta encontrar o que não lhe pertence, o que é irrefutavelmente do outro, só do outro. Único bem humano de pertencimento involuntário, o pensamento. É meu, mesmo que eu não deseje, mesmo que eu não reparta. É meu.
E, com o olhar achado, andava naquela tarde a perguntar-me o que há na cidade, que com tão profundas marcas presenteia quem por aqui passa, por aqui vive, trabalha, corre, sobrevive.
Encontrei-me sem resposta, já que a quantidade delas era enorme, múltipla escolha, todas as alternativas corretas. Em meio a tantas e tantas respostas, o olhar achava mais e mais, e mais, e mais ainda.
A gente não se acostuma. É a resposta correta. A única para explicar o que é que o Rio tem.
É isso. A gente não se acostuma com a violência, com o medo, com a miséria. Mas a gente também não se acostuma com a beleza, com os sorrisos, com o charme, com ela que, em mil detalhes, é cidade maravilhosa.
Não dá pra não se surpreender com o espelho da lagoa no cenário da serra, com sol, sem sol, com chuva, um espetáculo novo a cada dia. Como os grandes musicais da Broadway, mas de graça, para quem quer ver e também pra quem não faz questão. Está lá, há décadas, séculos em cartaz. A gente não se acostuma.
Quando a lua derrama seu brilho, são gotas de cristal nas marolas de Ipanema. A gente não se acostuma.
A gente não se acostuma a sair do trabalho e ver a praia cheia de gente. É alegria que não incomoda, que contagia, envolve. Semana que vem, nas férias, outro dia, eu vou também.
Se a pressa é grande, se o tempo é curto, se o olhar está realmente perdido e não acha o que é belo, mesmo assim, a gente não se acostuma. A beleza está lá, obra prima emoldurada pela vida, pelo cotidiano, pela arte de viver. Um dia, o olhar encontra, pára, pronto! Olhar achado.
Curvas para todos os olhares achados. Curvas no desenho da rua repleta de automóveis, ritmo, cadência urbana. Curvas nas margens da lagoa. Curva desenhada, lenta e poética das águas do mar nas areias da praia. Curvas da serra. Curvas dos corpos que caminham, mulheres de curvas, curvas de homens. A gente também não se acostuma.
Pôr do sol, daqui, dali, do Arpoador. A gente não se acostuma.
É isso que o Rio tem. É surpreendente. A gente não se acostuma.

Imagem: Pôr do Sol do Arpoador - jan/08 - por Márcia Helena

quarta-feira, 6 de maio de 2009

ESTRANHO PODER DA LINGUAGEM


Perguntou-me um amigo, há pouco, o que leio. Respondi-lhe, sem hesitar, que leio qualquer coisa, bulas de remédios, propagandas, manuais de instruções, que sou encantada pelo poder da linguagem. Fique claro, aqui, que, a escolher, fico com a boa literatura e, nesse campo, tenho definidas preferências.
O encanto pelo que leio cresce à proporção da quantidade de pensamentos emergidos pela admiração do encontro das palavras que se me apresentam.
Cai-me, então, às mãos, um encarte de farmácia. A julgar pela quantidade de páginas, sem ao menos abri-lo, já me jorram os pensamentos, incômodos como a primeira luz acesa ao amanhecer, que causa repulsa aos olhos, mas desvela o início do dia.
Que tipo de gente - ou gentes - lê encartes de farmácia? Imagens e mais imagens me interpelam a consciência. Por que não leio encartes de farmácia? Por que, às minhas mãos, servirão ao lixo, quando muito, à reciclagem?
Há gentes que procuram nos encartes razão para sair mais uma vez de casa. Já têm, nas costas, as marcas do tempo e a tão esperada aposentadoria se lhes apresenta como a forma mais cruel de dizer-lhes que já não têm o que fazer à rua. Ainda que no encarte esteja em graves letras o número de telefone para entrega domiciliar, há necessidade de escolher, verificar, de sair de casa, ver outras gentes, esperando pelo fio perdido de conversa que se pega com habilidade em qualquer fila a que se acomodem.
Há outras gentes que, atoladas em funções cotidianas medíocres, desprovidas da necessária criatividade e do estímulo ao uso da inteligência que desenferruja as engrenagens do pensamento, a deixar-se sempre a postos para o vital exercício da mente, estão sempre doentes. E, mais que doentes, estão sempre à cata de um novo sintoma que lhes abasteça do indispensável assunto para o trabalho do dia seguinte. Leem encarte de farmácia, com certeza.
Por que será que não leio encarte de farmácia?
De supermercado, leio. De loja de departamentos, também. Por que não o de farmácia?
Verdade é que se minha paixão pela leitura vem da possibilidade de instigar os mais ramificados pensamentos, para isso, serviu-me muito bem esse encarte de farmácia. Pergunto-me, agora, se preciso lê-lo literalmente ou se já fiz a agradável leitura, que não só trouxe-me pensamentos à mente, como, ao papel, essas palavras que escrevo.
Acabo de descobrir o inesperado. Sem saber, li o encarte da farmácia. Fiz minha leitura, é fato. Mas o li. Foi surpreendente.
E o fiz pelo magnânimo poder da linguagem. Uma pergunta despretensiosa de um amigo e, nas mãos, um encarte de farmácia. Isso é linguagem.

Imagem: A Leitora - Pierre Auguste Renoir