Estava eu, mais uma vez, com o olhar achado. Olhar achado, não olhar perdido. Por que chamar de “perdido” o olhar de quem se acha imerso em pensamentos? Perdido pra quem, de fora, tenta encontrar o que não lhe pertence, o que é irrefutavelmente do outro, só do outro. Único bem humano de pertencimento involuntário, o pensamento. É meu, mesmo que eu não deseje, mesmo que eu não reparta. É meu.
E, com o olhar achado, andava naquela tarde a perguntar-me o que há na cidade, que com tão profundas marcas presenteia quem por aqui passa, por aqui vive, trabalha, corre, sobrevive.
Encontrei-me sem resposta, já que a quantidade delas era enorme, múltipla escolha, todas as alternativas corretas. Em meio a tantas e tantas respostas, o olhar achava mais e mais, e mais, e mais ainda.
A gente não se acostuma. É a resposta correta. A única para explicar o que é que o Rio tem.
É isso. A gente não se acostuma com a violência, com o medo, com a miséria. Mas a gente também não se acostuma com a beleza, com os sorrisos, com o charme, com ela que, em mil detalhes, é cidade maravilhosa.
Não dá pra não se surpreender com o espelho da lagoa no cenário da serra, com sol, sem sol, com chuva, um espetáculo novo a cada dia. Como os grandes musicais da Broadway, mas de graça, para quem quer ver e também pra quem não faz questão. Está lá, há décadas, séculos em cartaz. A gente não se acostuma.
Quando a lua derrama seu brilho, são gotas de cristal nas marolas de Ipanema. A gente não se acostuma.
A gente não se acostuma a sair do trabalho e ver a praia cheia de gente. É alegria que não incomoda, que contagia, envolve. Semana que vem, nas férias, outro dia, eu vou também.
Se a pressa é grande, se o tempo é curto, se o olhar está realmente perdido e não acha o que é belo, mesmo assim, a gente não se acostuma. A beleza está lá, obra prima emoldurada pela vida, pelo cotidiano, pela arte de viver. Um dia, o olhar encontra, pára, pronto! Olhar achado.
Curvas para todos os olhares achados. Curvas no desenho da rua repleta de automóveis, ritmo, cadência urbana. Curvas nas margens da lagoa. Curva desenhada, lenta e poética das águas do mar nas areias da praia. Curvas da serra. Curvas dos corpos que caminham, mulheres de curvas, curvas de homens. A gente também não se acostuma.
Pôr do sol, daqui, dali, do Arpoador. A gente não se acostuma.
É isso que o Rio tem. É surpreendente. A gente não se acostuma.
Imagem: Pôr do Sol do Arpoador - jan/08 - por Márcia Helena